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Nesses dias voltei a viajar. Peguei o último trem que sai às 23:55 e retornei a 2011. Já não lembrava o quanto naquela época viver era essencialmente bobo. O exercício da desmemória aliado ao desrecurso do tempo ajudava a consciência a não se importar com algo mais que fosse além do hoje. Os jogos de sedução provavelmente eram o que se tinha de melhor a fazer. Investir-se numa relação imaginária, talvez, a maior das aventuras. 

As relações de afeto eram das mais engraçadas. Refletiam o momento em que a política tinha-se tornado a maior das grandes piadas. Comemorava-se a primeira mulher na presidência da república, tanto quanto o primeiro palhaço analfabeto no congresso. Tudo era demais.  

As grandes palavras já não eram democracia, justiça, liberdade; mas, no fim do dia, os vestígios dessas nos seus de, com e para. Ainda se fazia pouco caso da utopia embora o despotismo naquele momento houvesse caído depois de dezenas de anos como lastro nas terras do outro lado do oceano. 

O mormaço tinha resolvido que deveria invadir todas as regiões, a despeito das linhas invisíveis tropicais. Os bares se tornaram a ágora. Por todo o país, eram o lugar das discussões de interesse público. As cervejas, estupidamente, geladas, davam o tom de solenidade. Mas ficava difícil discutir qualquer coisa seriamente que não fosse futebol. Diante da fragilidade dos argumentos, a pilhéria tomava lugar. Tomar partido durante as campanhas eleitorais era contribuir para que o candidato da oposição fosse mais degradado que o seu próprio. Futebol não, unânime a urgência de trocar o técnico da seleção nacional.

***

 

 

O cinismo havia nos fecundado culturalmente. Apesar do decreto de sua falência, a crítica de arte não sucumbia. Continuava em sua missão confortável de manutenção das ficções. E aqui cabe lhe lembrar que não eram em si maléficas. Quando falo em ficção, não penso que seja uma criação absolutamente mentirosa, muito pelo contrário, foi através das invenções que hoje temos o que temos. Agora, em 2046, a vida só é possível pelo o que fora (re)inventado no coração de uns poucos. 

O que por ora trago à memória com certa angústia é rever que o papel da crítica tinha-se entregado tão somente à demanda institucional e de mercado, nunca à necessidade coletiva ou mesmo individual. Era apenas mais uma articulação dentro da grande engrenagem chamada de – naquele tempo – campo da arte. O exercício da crítica já não era crítico. Mas algo dedicado à sedimentação do que fora anteriormente sugerido. Não havia debate. Já não havia conflitos. Os poucos textos que desafinavam junto àquele grande discurso uníssono eram tidos como recalque. Os ouvidos não eram para ouvir. 

Não havia a audácia de outros olhares sobre os mesmos trabalhos. Não sei se por preguiça, desinteresse, ou mesmo falta de coragem. Por exemplo, o trabalho daquele artista que incitou o uso clandestino das cédulas e garrafas de Coca-cola para mandar mensagens subversivas nos anos 1960 continuava sendo celebrado e em nenhum momento reavaliado naquele outro contexto não mais de política ditatorial. Junto com o trabalho da fábrica de picolé autogerida e de economia não sustentável, aqueles outros foram revestidos do discurso de uma prática crítica frente às lógicas das estruturas capitalistas. 

O que era notadamente cínico, porque embora o artista afirmasse que seu trabalho não era os objetos de fato, mas a proposição; as mesmas lógicas de mercado que supostamente os trabalhos criticavam davam conta de absorver os objetos residuais dessas proposições, criando especulações de valor ainda mais perversas. Os resíduos-materiais das obras se tornavam commodities com anuência e por vezes assinatura do próprio artista. 

Assim, o que tinha o potencial de ser uma prática revolucionária simplesmente se esvaía; os trabalhos se tornavam meros comentários de uma possibilidade de revolução. Comentário cínico e perverso por alimentar sem inocência a grande máquina, e ainda ganhar status de único criticismo possível. Não à toa, havia se desenvolvido os estados conformistas. A partir dali eram muitos os trabalhos, textos e curadorias reféns de si mesmos. Excessivamente discursivos. Nenhuma possibilidade de entropia. 

Ao que antes era arte, deu-se lugar aos seus múltiplos. O fetichismo animava a produção dos artistas bicho-da-seda, ou mesmo joão-de-barro – quando em tempos e tempos se celebrava a gambiarra, o precário. 

E agora que não há capitalismo. Ver aquilo sustentado com tanta resignação de discurso é essencialmente bobo. Como tudo naquele tempo. Em que se faltava vontade. A utopia, na verdade, não havia morrido. Mas era como um desses amores bandidos. Poucos tinham coragem de assumir que era com ela que estavam enamorados.

***

 

 

Como regidos por uma batuta, procurariam pelo pequeno aparelho em seus bolsos ao mesmo tempo. Os chiados. Era como o afinar dos instrumentos. Vai começar: mais um jogo.

***

 

Março de 2046,

 

 

¹este texto traz referências (in)diretas aos seguintes autores: Daniela Castro, Mário Pedrosa, Moacir dos Anjos, Vladimir Safatle, Wong Kar-Wai.

* Texto publicado na revista (revista), março de 2011.

É sempre necessário um bom tempo de leitura e (releituras) da história tal qual nos é contada para começarmos a perceber as entrelinhas: os contextos, os pré-textos, os lugares da fala dos que nos contam sobre nosso passado. Não raro, o que “ficou” para trás é celebrado, mas apenas as porções que contingentemente interessam aqui no presente; o resto negamos. Ou fazemos pouco caso. 

Celebramos Dom Pedro I e a independência (que não veio) e nos furtamos de enxergar tantos movimentos independentes que reclamavam autonomia do seu próprio país. Muitos sangraram, pereceram antes do (mitológico) grito. Ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil. Ainda assim celebramos o Dom, mesmo sem a pátria efetivamente livre, e me questiono se nosso Pedro alguma vez esteve próximo de morrer pelo Brasil. Fazemos festa para Isabel e esquecemos os torturados líderes junto aos seus irmãos negros e outros abolicionistas; tantos mortos em nome daquela pátria mãe gentil (para a economia da época, nem sempre foi uma questão de cor). 

Não se trata de negar, absolutamente, que os atos de Pedro I e Isabel foram importantes para algumas mudanças necessárias naqueles momentos. Contudo, é ingenuidade pensar que eles sozinhos foram precursores de quaisquer mudanças. É preciso acabar com os heróis. Tanto quanto os anti-heróis. A ideia de heroísmo só torna embaçada a possibilidade de enxergar a força das ações coletivas. 

Arbitrariamente como a cor do céu no Recife a despeito das estações do ano: um dia é azul, outro cinza –, celebra-se Oswald e a Antropofagia. E a questão não passa por deixar de celebrá-los, mas de lembrar que antes do paulista (ou em momento simultâneo), já havia outros modernismos, entre estes, o pernambucano que, provavelmente, foi influência para aquele (e vice-versa) – assim aponta Paulo Herkenhoff.  

Trago à tona esse panorama para que pensemos o SPA das Artes. Nos últimos anos, só se fala de sua crise. Pergunto-me: do quê ao certo? Na tentativa de me posicionar no presente fui em busca do passado (ainda que recente, mas para maioria nós já tão distante porque desmemoriados – destino?). E ao ler a história viva sendo contada ali do meu lado, dei-me conta de que o SPA tem sido construído, desde o início, por uma coletividade. Ora, não veio de um a concepção do evento. Eram muitos os grupos que atuavam naquele momento-gênese, e não o faziam de forma pontual, estavam embalados por uma vontade coletiva nacional de mudança na raiz daquela ordem político-governamental. 

Mudou-se o governo, mas não a forma de pensar e fazer política, ainda assim, este contribuiu para que acontecessem ações importantes no âmbito da cultura que possibilitaram certo frescor no campo das artes. E dentre tantos exemplos nacionais, temos o SPA. Se há uma crise, é pouco provável que seja do evento.  

Não é preciso ir muito longe de Pernambuco para perceber a sensação de incômodo. Passaram-se quase dez anos e já não há frescor. Muito pelo contrário, deve faltar muito pouco para que cheguemos ao completo colapso. As políticas públicas não se fazem suficientes. A “geração” 2000, no entanto, acostumou-se a ver cada vez mais forte a institucionalização da arte (será que algum dia aprenderá a viver sem editais?). A crise é geral e advém elementarmente da falta de vontade de posicionamento: no pensar e no agir. Se fala mal da instituição e do mercado, mas os querem desesperados e tolamente: quando fazem com que suas produções (sejam artísticas e/ou teóricas) sejam apenas ativadas pelas demandas daqueles. 

Penso que resolveremos a crise (ou daremos um passo para) quando minimamente soubermos de qual arte estamos falando. Aos poucos fui dando-me conta de que quando falamos em arte, não a compreendemos coletivamente nos mesmos termos. Contudo, uma maioria, de maneira pragmática, resolveu (querer) entender arte dentro de um sistema específico de legitimação institucional-mercadológico.  

Esse assunto tem urgência por ser debruçado em busca de uma discussão. O pensamento capitalista reificante já está tão entranhado que quando se fala em valor de uma obra associa-se imediatamente ao valor de mercado. Mas e o valor imaterial-simbólico? E o seu valor enquanto acontecimento? Penso que a obra de arte traz em si valores capazes de ativar outras economias que não só a do capital. O que vende hoje, ou não, não deveria ser imediatamente um problema. A proposição de arte que não tem lugar para acontecer, que não está próxima e acessível, que não se pode fruída, seria isto com o que deveríamos estar mais preocupados. Pensar, por exemplo, política pública como algo que nos assegure a permanência de coleções de arte (acessíveis a todos) substanciais em nosso país. 

Ao invés disso, as forças e vontade de mudança logo se arrefecem quando políticas públicas são, por vezes, levianamente, criadas para cumprir demandas muito específicas de escoamento de uma produção de arte também muito específica: jovem. Porque fácil de fazer especulações de valor de mercado sobre. Daí se justificam os mapeamentos feitos por instituições privadas e tantos outros eventos e formatos megalomaníacos de exposições (todos estes com dinheiro público). 

Se formos pensar o SPA das Artes nesses moldes, de fato, há uma crise. O orçamento do evento foi encurtado, nesse sentido, também o valor disponível para a disputa por um pedaço deste através do edital. Eu prefiro pensar, contudo, arte e SPA das Artes sob outro foco. 

Talvez devamos aproveitar que o termo “artes visuais” já não consegue abarcar a quantidade de linguagens, assuntos, ações, proposições hoje entendidos como campo de atuação da arte contemporânea, para mudá-lo e com isso também deixar para trás as associações equivocadas em torno da arte e mercado. Híbridas, conectadas, entrelaçadas, as linguagens redefinem parâmetros, reposicionam fronteiras. Por que não chamá-las apenas de experiências estéticas? 

Despida dessa veste supérflua (especulação de mercado) o que fica da arte é a experiência estética capaz de ativar não só construções de subjetividade quanto economias diversas que não só a do capital. A arte pulsante desperta a experiência nua: porque de uma verdade só possível encarnada – percepção, vivência, embora por vezes compartilhada, única daquela pessoa. Diferente se fôssemos pensar a “experiência pura” como se pudéssemos atribuir uma única verdade, um algo ligado à essência e distante do corpo. 

Na experiência estética, enquanto experiência nua, faz-se um lugar de construção da subjetividade através da troca simbólica capaz de acionar a (re)invenção do espaço, do tempo, do uso vulgar das coisas e situações cotidianas. Um lugar político por natureza, onde são possíveis as construções simbólicas coletivas: imaginário comum, não no sentido de igualdade, homogeneidade, mas de compartilhamento. Se pensarmos em experiência estética como acontecimento – e penso mesmo que a obra de arte é acontecência, deixa-se acontecer sempre a quem se dispõe ao encontro –, é possível entendê-la como algo que reverbera e extrapola a experiência do corpo de um indivíduo apenas. 

É preciso pensar o SPA das Artes para muito além de mero provedor de bolsas para produção de obras de arte (e legitimador destas). Sonhado e concebido, desde o início, por grupos que se posicionaram e buscaram por transformações sócio-políticas através da coletividade, o evento ainda consegue se resguardar como um agenciador de experiências estéticas e estésicas – porque também afetivas. Não à toa, construíram-se, a partir destas experiências, relações interpessoais diversas. Estas formaram redes que deram conta de criar outros eventos-irmãos como o Fora do Eixo(DF) e o S.E.U.(RS).    

A cada nova edição, coordenadores, produtores e demais colaboradores do SPA procuram (re)pensar seu formato em busca de torná-lo cada vez mais democrático: tanto na forma da distribuição de bolsas de incentivo para produção de obras (experiências estéticas), quanto no que diz respeito à recepção destas pelo público, sobretudo, local. Ainda assim, há os que (inertes) apenas reclamam da crise, como se não fossem co-responsáveis. Talvez estes sejam os criadores, porque também esperam por eles, dos heróis. Mas, se for uma questão de tradição brasileira e resolverem escolher um para herói ou santo – sou a favor dos dias de ócio em que se pode sentar com amigos para algumas cervejas –, não se deixe de celebrar os outros tantos.

Daqui a muitos anos, quando eufóricos quiserem beber e se alimentar antropofagicamente desde nosso momento, saibam que nos construímos, como pessoas e como história, de alegrias e feridas. Tomara que ao celebrar tal santo herói tenham em mente que até este foi construído por Joãos, Márcios, Beths, Fernandos, Josés, Maurícios, Paulos, Rodrigos, Moacires, Julianas, Clarissas, Danieis, Jomards, Anas, Raízas, Fernandos, Danielas, Irmas, Maíras, Camilas, Krishnas, Michelines, Maicyras, Brunos, Lucianas, Lúcias, Marias, Aslans, Izidórios, Alexes, Fernandas, Fabianas, Manuelas, Marcelos, Renatos, Eduardos, Lauras, Ophelias, Bárbaras, Gils, Cristianos, Diogos, Marianas, Jonathas, Flávios,

 

ReviSPA 2010, setembro.

http://spa2010.artesvisuaisrecife.org/

 

O discurso do ‘fim’ não significa que ‘tudo acabou’, mas exorta a uma mudança no discurso, já que o objeto mudou e não se ajusta mais aos seus antigos enquadramentos.” 

Hans Belting em O fim da história da arte.

 

 

A Utopia como lugar possível;  

ou, pequeno dicionário de palavras proibidas (no discurso da arte contemporânea).

 

O cristianismo e o comunismo morreram, ainda assim, há um ranço que permanece nas bocas contemporâneas toda vez que ousam falar as palavras que um vez comandaram os modos de pensar e agir destes modelos ideológicos. Algumas até as engolem antes de. Porque uma vez ditas, sobejam os embaraçosos pedidos de desculpas. Falharam! (Os modelos, ou – nós – os seguidores destes modelos?). É por isso que já não se pode ceder ao amor, ao engajamento e à utopia. 

A necessidade de declarar o fim nem sempre significa deparar-se com o fim de fato. Mas de tentar antecipá-lo numa atitude desesperada por mudança. É menos doído assegurar a mentira do “eu não te amo mais” do que lidar com o amor diariamente desafiado pela relação (aparentemente) fadada ao fracasso. Para sobrevivermos aos amores, nós os chamamos -ex; e aos percalços da história, fica mais bonito falarmos em pós- 

A criação dos pós-, sobretudo nos dias contemporâneos, me pego pensando, mais parece remédio paliativo para controlar a ansiedade coletiva frente à ausência de transformações profundas – até por que essa mesma coletividade se convenceu (ou foi convencida, não sei ao certo) de que as mudanças virão a despeito de sua responsabilidade –, do que (re)ajustes das formas de pensar e agir diante dos acontecimentos históricos. 

Nessa vida de pós-pós-tudo, ninguém mais admite o ranço (depois de tanto pós- cria-se também o distanciamento histórico). Refugiados de modo cientificista na arte, já não há quem ouse voltar a falar em amor, engajamento e utopia (?).

Do amor

A despeito disso, sei que há, em Pernambuco, pelo menos, dois corações deveras piegas: que acreditam no amor como meio, engajamento como forma e na utopia como meta. Desde 2006, a revista Tatuí1 não é outra coisa senão uma construção diária de utopias. O lugar (im)possível sempre foi (e é) demarcado para além de nossa possibilidade; o amor, a força motor de nossos esforços; e o engajamento, a maneira de fazer que se juntem a nós outros corações – talvez não assumidos, mas igualmente piegas – que, de alguma forma, se dedicam ao projeto. 

Há quatro anos atrás, o fanzine Tatuí era o lugar (im)possível que precisava ser construído. Não havia em Recife (e continua não havendo), um espaço onde pudessem convergir encontros e interlocuções de ideias acerca das artes visuais, em que as vozes fossem plurais e de valores equidistantes a despeito de suas origens/formações.  

A cada novo projeto (edição dos números impressos e revista online), o lugar (im)possível se restabelece. Lançamo-nos ao desafio não só da captação de recursos, de engajamento dos (novos) colaboradores, de projetos editoriais mais aprofundados (sem deixar de ser experimentais), como também de ampliar a acessibilidade aos conteúdos e possibilidade de trocas diversas através de encontros interpessoais. 

Do engajamento

Nesse sentido, a Tatuí, hoje, não se trata, apenas, de uma revista. É um projeto coletivo (apesar de ter suas ações catalisadas pelas editoras) articulado por uma rede de colaboradores que ao fomentar encontros para debates e oficinas, promove também, trocas simbólicas e de afeto. Tais trocas, por sua vez, alicerçam a possibilidade de novos lugares a serem construídos… 

Através dessa rede, chegamos à Casa Tomada(SP). Para minha surpresa e alegria, descobri que por trás deste projeto há também dois corações2 – será que posso dizê-los piegas? Porque não foi de outro jeito que, senão com amor, fomos recebidas. Tínhamos sido convidadas para uma tarde de debate3 e, quando nos demos conta, já estávamos envolvidas pelo afeto. 

Não à toa, continuei frequentando a Casa nos quatro dias que se seguiram. Uma vez ali acolhida, passei a desejar as trocas – e foram muitas. Era caminhar pelos cômodos do sobrado e não tardava encontrar preciosidades em forma de gente4. Nesses poucos dias, meu repertório se ampliou enriquecidamente: sobre música, teatro, dança, arquitetura, cinema… Foram debates sobre arte, política, coletivos, subjetividade, editais e políticas públicas, publicações de arte, processos criativos, poesia… 

Naqueles dias lá, entendi que, pelos pavimentos, os encontros edificam e potencializam o projeto Casa Tomada. Assim, os artistas e pesquisadores residentes, convidados das mais diversas áreas de atuação e visitantes espontâneos, alimentam a si mesmos e fazem alimentar os desejos de criação individuais e coletivos. 

Daí, se pode imaginar que não havia outro jeito que não fosse o me render ao engajamento. A Casa Tomada, à semelhança da Tatuí, se (re)pensa e se (re)faz a cada novo projeto do programa de residência ateliê aberto; tanto quanto, costura, com afeto, sua rede de colaboradores para construir seus lugares (im)possíveis.

Da utopia

Sem os grandes modelos ideológicos5, ficou um lugar por ali, adiante, ainda por ser demarcado e construído: sem palavras de ordem, ou pílulas teóricas anti-ansiedade coletiva.

 

 

1Tatuí, revista de arte independente com versões online e impressa, surge em 2006 no Recife-PE como fanzine e atualmente encontra-se em seu oitavo número. Editada pelas pesquisadoras Ana Luisa Lima e Clarissa Diniz, a publicação se debruça sobre debates pertinentes à recente produção artística, em especial, a brasileira. Conta com colaboração de artistas, críticos, curadores, pesquisadores, educadores e escritores de diversas partes do Brasil. Suas edições – que já tiveram lançamentos em Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Minas Gerais, Distrito Federal, São Paulo e  Rio de Janeiro – são nacionalmente distribuídas em livrarias, bancas de revista e instituições culturais. A revista tem sido convidada a participar de eventos e debates tais como o SPA das Artes (Recife-PE), Seminário Internacional do Museu da Vale (Vila Velha-ES), Fora do Eixo (Brasília-DF) e Bienal do Livro (Recife-PE). Hoje contando com múltiplas fontes de financiamento como a Prefeitura do Recife, Governo do Estado de Pernambuco e FUNARTE  (MinC), todo conteúdo produzido pela Tatuí está disponível em www.revistatatui.com 
2Tainá Azeredo e Thereza Farkas, idealizadoras e coordenadoras da Casa Tomada.  
3O encontro fazia parte da agenda de encontros promovidos pelo programa de residência ateliê aberto #2 .
4Os quatro dias na Casa Tomada me possibilitaram belos encontros com: Carlota Mazon, Carolina Mendonça, Caroline Valansi, Clara Crocodilo, Erica Ferrari, Habacuque Lima, Josefa Pereira, Luísa Horta, Mayra Martins, Mayana Redin, Rodrigo Castro, Rosana Mariotto, Tábata Makowski, Tainá Azeredo, Thais Graciotti, Thereza Farkas e William Lima.  
5Dos grandes modelos, só restou soberano o capitalismo.

 

http://casatomada.com.br/site/

 

Sobre Caroline Valansi 

Terra Una, 20 de março de 2010.

 

São as próprias coisas, do fundo do seu silêncio, que deseja conduzir à expressão.”

Merleau-Ponty em o Visível e o Invisível.

 

 

Então, o artista, na produção da obra, tem que mostrar – não é uma questão voluntária, é uma necessidade existencial –, todas as suas raízes, todas as suas experiências, todo seu processo de formação estética, e todo o seu sentir: sua afetividade está relacionada com sua vida cotidiana. Tudo isso recolhe, por um lado, toda sua tradição – porque ele é esta tradição – e necessariamente vai se mostrando em tudo que produzir.”

Jesus Torres Vázquez, em entrevista para revista Tatuí número 4.

 

 

A experiência do salto; ou, como ser Libre1

 

Hoje, nada mais raro do que um artista que se permite um salto “Libre”sem suas redes de segurança procedimentais que sempre lhe asseguram o discurso da coerência. A necessidade de controle – do discurso e da forma – é sintomática nessa geração que surge nas universidades, notadamente, nos anos 2000. Mergulhado numa realidade mercadológica, na qual a arte se mostra cada vez mais ativada apenas por esta demanda, fica a pergunta: onde andará a necessidade criadora (a pulsão-criativa) do artista? 

Pulsão de vida e de morte, prazer e angústia, diluíram-se nos modos do fazer contemporâneo (?). É curioso perceber que a arte antes pensada como um “exercício experimental da liberdade”2, agora, para muitos, é só exercício, procedimento, longe de ser uma experiência da liberdade. O experimental parece só se potencializar quando há demarcações de limites. Diante da liberdade, da possibilidade plena de todas as coisas, prefere-se menos o risco. Paradoxalmente, embora não haja, na contemporaneidade, um programa estético comum, o excesso das repetições formais e de assuntos tacitamente formaram cânones – de processos, discursos e visualidades. 

O procedimento em si não é um mal quando meio e não fim. Pode ser um grande aliado do artista ajudando-o perceber a potência dialógica dos materiais (concretos e abstratos). Nessa direção, podemos pensar os trabalhos de Caroline Valansi. 

Com formação em fotografia e cinema, não à toa é possível perceber, na maioria dos trabalhos de Caroline, o cuidado meticuloso com os elementos compositivos: enquadramento, luz, cor… Mas ao vislumbrar que tal background lhe dava uma espécie de lugar seguro de atuação, em sua passagem por Terra Una, optou pelo salto, por explorar outras possibilidades para além do fotográfico – sem necessariamente abrir mão do uso da fotografia ora como matéria, ora como linguagem, ora matéria e linguagem simultaneamente. 

A obra Trans-forma carrega em si a síntese – bastante intrigante – de um trabalho que se pretende formal, mas se mostra afeito à narrativa. Ao fazer uso da fotografia como matéria, Caroline mistura este elemento cultural à natureza (raízes e terra) criando, na forma, um embate dessas vozes tão distintas, ao mesmo tempo que, juntas, tais vozes tornam-se o argumento que cria a possibilidade de ricas narrativas. 

No desenvolvimento do trabalho Trans-forma, a artista se viu questionada pelos elementos naturais. A partir de então, começou a coletar e inventariar tipos de raízes, ninhos de pássaros e cascas de árvores. No processo de inventário das raízes, surgiu a série de gravuras-desenhos feitos por frotagem com grafite e pastel oleoso. Do estudo dos ninhos abandonados pelos pássaros, percebeu que estes eram feitos de raízes. Nesse percurso, voltando a sua própria raiz (para sua avó materna que lhe é a referência no uso da costura) começou a intervir nos ninhos fazendo costuras com linha vermelha, como se quisesse devolver a estes ninhos agregando a estes o significado de sua própria história o status de lar. 

Na reconstrução dos ninhos, deu-se conta da repetição do uso da linha vermelha como elemento formal3. Isso fez-lhe questionar se a presença da linha4 seria mesmo uma necessidade-significado ou o uso excessivo de uma fórmula. Dessa interrogação surgiu o trabalho Ninho de Gente que se trata de um objeto/escultura e algumas séries fotográficas. 

Ninho de Gente acaba por ser a resposta aos questionamentos feitos pelos elementos naturais e por si mesma . Na construção do objeto, Caroline abandona todo e qualquer elemento cultural (embora use a costura como método) fazendo-o apenas com cipó, palha e mato. O ninho feito para gente devolve à natureza a pergunta sobre o natural e o cultural. 

Embora a priori pensado para ser apenas objeto/escultura, Ninho de Gente acabou se tornando (também) séries de fotografia quando começou a ser fruído espontaneamente. Tomadas pelo exercício de plena liberdade, as pessoas propunham novos lugares e maneiras de fruir. As imagens feitas a partir dessas experiências são, sobretudo, um diálogo sincero entre artista, obra e público. Não à toa que cada proposta de fruição carrega também a possibilidade de uma nova narrativa. Cada imagem da série é uma síntese dos desejos tanto da artista, quanto do público, por isso mesmo que se sustenta enquanto obra individualmente e quando em conjunto. Sob estas mesmas perspectivas, o trabalho Rio Seco foi construído feito de terra e cascas de árvores. 

A necessidade de coerência – formal e no discurso – responde mais às demandas de mercado, menos à pulsão criadora e criativa do artista. Na experiência do salto, não há garantias de uma aterrissagem segura. Mas, o certo é que a insegurança imbricada nessa vivência há de sempre reinventar possibilidades de novos voos. E quem voa não se afasta do que é e do que faz. Afasta-se apenas do lugar seguro, previsível. Deixa de lado a coerência (lógica e linear) e vive a consistência: sua maneira de estar no mundo e que nesse sentido todas as construções estão impregnadas do que é (ainda que sempre gerúndio).

 

 

1Libre, 2005, é o título de uma série em fotografia de Caroline Valansi que fala da liberdade na possibilidade de um salto de alguém despido apenas ‘amparado’ por um imenso céu azul.

2Palavras de Mário Pedrosa, 1968.

3 na série Memórias Inventadas em Costuras Simples, 2006-2009, a linha vermelha é elemento formal e assunto.

4Essa mesma ‘linha vermelha’ também aparece como elemento formal no trabalho Ressonâncias da terra, 2010, Terra Una.

http://www.flickr.com/photos/carolinevalansi/

 

Sobre Mayra Martins Redin

Terra Una, 21 de março de 2010.

 

Sobre colher chuva; ou, pequenos tratados sobre coisas inúteis

 

Desvendar os trabalhos de Mayra Redin será sempre um tentar, como o trabalho em si mesmo é uma tentativa para. Sempre prestes à. Sempre ao ponto de. Sempre que tem cara de nunca , embora não o seja de fato porque quando damos o primeiro passo para a espreita, já estamos lá, naquilo. Estar ou não imerso nas proposições, sensivelmente elaboradas por ela, é um estado inequívoco: sabemos do começo. Porém, não do fim. Se é que haverá um fim.  

Se nos aproximarmos das suas palavras-ações acerca da chuva, por exemplo, o quanto disso só por si já não se fará impregnado? Então, a cada nova chuva, sua voz ressoará no fundo de nós. Possivelmente, já esmaecida – diluída. Mas. A substância dos seus assuntos não é esse sempre mas? 

A obra-vivência se trata de (in)definição (e se quer (res)guardada desse jeito: num cantinho, embora sempre à mão). Trata-se de pequeninas fronteiras prontas para uma travessia atenta. Mergulhar nas ações que ela propõe pressupõem um estado de alerta porque se quer percorrer o ínfimo: o mínimo, o (in)fixo, o (in)certo. É tudo mesmo assim: sim-e-não e não-e-sim.  

Os trabalhos de Mayra tratam da minúcia, do detalhe, do olhar sobre o irrelevante. Nesse sentido, são proposições para todos, enquanto alvo; para alguns, naquilo que é acessível. Porque experienciar tais propostas requer, no mínimo, a alma desnuda, despudorada, sem medo das ameaças do ridículo. Trazem consigo mesmas uma simetria com as portas de Hermann Hesse – “só para loucos” (Do livro o Lobo da Estepe). 

Me pego pensando sobre esse seu debruçar pelas coisas mínimas. O quanto disso tem de inteiro? Tratar das coisas inúteis com propriedade parece sempre arranjar um caminho inevitável para as grandes coisas. Assim percorreu vida e obra de Manoel de Barros. 

Por que não saber da superfície, do visível, do tátil, do possível? Por que não mergulhar na gota, no orvalho, no sereno? Por que não tratar do despercebido? Do já sabido, mas nem sempre experienciado? 

Mayra propõe percursos aparentemente tautológicos entre a dimensão textual (escrita) de seu trabalho e suas proposições-obras. Mas o fato é que, ainda que uma coisa esteja atravessada na outra, são diversas. Para aquele que experiencia as proposições-obras abrir-se-ão percursos completamente diferentes daqueles que ela mesmo descreveu em seu texto. Assim como aquele que ler, há de ter caminhos outros pela frente, diferentes dos que estão ali escritos – muito mais diversos dos que não puderam ser experienciados.  

Isso se dá pela natureza particular de cada linguagem. A experiência estética e a escrita. Nem tudo o que pode ser experienciado no corpo pode ser traduzido em palavra. Assim como cada palavra pode levar a uma viagem outra que a experiencia estética é incapaz de proporcionar. Dessa forma abre-se esse duplo necessário na obra de Mayra: 1. o desejo de fazer o corpo se saber enquanto superfície que se deixa impregnar de. 2. a vontade de dizer daquilo que já foi (vivido) ser nova possibilidade de ser (de alguma forma) apreendido. 

Em Mayra Redin, palavras e ações têm um caráter continuum. Cada nova ideia, cada nova ação, cada nova palavra sobre, cada nova tentativa de, somadas, tornam-se pequenos tratados de coisas inúteis – não por isso (é possível que por isso mesmo!) pungentemente bonitos.

 

 

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http://www.caminhoinverso.blogspot.com/

 

Mostra DESIGNO

A mostra Designo não é uma exposição de, ou sobre desenho, mas criação de um lugar de diálogo através da política do desenho como um estado instigante da imaginação, sensorialidade e pensamento crítico-reflexivo. 

Designo trata da indicação das possibilidades do desenho enquanto representação, apresentação e presentação de si mesmo. 

O desenho quando representação nem sempre se põe como mimese das coisas, mas elaboração criativa acerca de mundos se utilizando de signos diversos que remetem diretamente a corpos, objetos, lugares concretos, tanto quanto abarcam conteúdos abstratos, conceituais.  

Quando apresentação, o desenho é mais expressão pura do que foi vivido, menos uma tentativa de nos fazer entender esta vivência. Traços-gestos são índices de uma passagem, de como os pensamentos, sensações e sentimentos se deslocam e fazem dos desenhos documentos de experiências únicas. 

O desenho também aporta a presentação de si mesmo. Geralmente de forma espontânea, os desenhos se mostram nas peles dos corpos, nas superfícies das coisas querendo dar conta de falar de si mesmos e do que, ou de quem, lhes deu vida. Nesse sentido, não são só meros índices de algo, mas quando se nos saltam à nossa percepção tomam corpos próprios, por vezes, clamando por significados. 

Sob um desses modus do desenho, e até mais de um ao mesmo tempo, podemos percorrer os trabalhos de Bruna Rafaella, Cyane Pacheco, Fábio Rafael, Jeims Duarte, Mozart Santos e todos quantos quiserem se juntar a esta mostra ampliando o repertório dessa linguagem. Dentro da política do desenho não cabe o não saber como desculpa para não se dar à criação. Aliás, não saber talvez seja o lugar mais interessante em que o corpo (entendido inteiro, humano ou não, intelectual, sensorial, emocional, espiritual, carnal, objetual) pode se entregar para uma expressão plena.

 

http://mostradesigno.wordpress.com/

Arte 24 horas por dia

Grupo se reúne de forma intensiva para fazer revista de arte contemporânea
ISABELLE BARROS

Artistas e pesquisadores estão reunidos no espaço do coletivo Branco do Olho.

Em uma casa na qual sete pessoas convivem, o silêncio é um bem raro. Isso é ainda mais verdadeiro quando esse grupo se juntou justamente com o objetivo de trocar ideias, que vão ganhar o papel em breve. Da quinta passada até hoje, artistas, pesquisadores e historiadores de várias partes do país estão reunidos no apartamento que abriga o coletivo Branco do Olho. Esse compromisso tem a duração de uma semana. A ideia é pensar a forma e o conteúdo do 8º número da revista Tatuí, uma das poucas de nível nacional dedicadas a uma discussão mais profunda e experimental sobre arte contemporânea. O lançamento está marcado para abril, no Recife, São Paulo e Rio de Janeiro.

O grupo é composto pelas pernambucanas Clarissa Diniz e Ana Luisa Lima, ganhando desta vez a colaboração de Maicyra Leão (SE/DF), Yuri Firmeza (SP/CE), Jonathas de Andrade (PE/AL), Newton Goto (PR) e Gustavo Motta (SP). Todos eles já contribuíram anteriormente com a publicação. Segundo Ana Luisa, essa experiência de imersão não é exatamente nova. Aconteceu tanto no primeiro, quanto no terceiro número da revista, mas é a primeira no qual tantas pessoas de lugares diferentes literalmente comem e dormem no mesmo espaço.

Após vários dias de “debates” (na verdade, conversas feitas da maneira mais informal possível), um dos temas mais recorrentes, que provavelmente deve dominar o conteúdo dos textos, foi a existência ou não de uma certa “geração” dos anos 2000. “Nem nós conseguimos definir o que é uma geração. Esse tema é muito complexo, e podemos propor uma nova trama de leitura”, analisa Goto.

A intenção é voltar a numeração do zero para marcar esse pensamento voltado para a reflexão sobre os desdobramentos do circuito de arte nos últimos dez anos, além de servir, de certa forma, para assinalar o início de uma nova fonte de financiamento, a Fundação Nacional de Arte (Funarte). “Os textos estão começando a apresentar um tom mais pessimista, o que se choca com uma noção excessivamente festiva sobre um suposto bom momento da arte nacional, com uma maior valorização fora do Brasil”, avalia Clarissa.

Com formações muito diversas, eles se reuniram, inicialmente, sem nenhum planejamento anterior dando mais ênfase à intensidade da experiência em conjunto. Toda a forma e o conteúdo da revista serão pensados a partir das conversas entre os membros do grupo. No calor das discussões, é comum ver opiniões contrárias postas à prova. O desafio da revista é fazer essa capacidade de síntese, algo que vai continuar depois do fim dessa semana de imersão. Nenhum dos textos será assinado, como uma decisão editorial que privilegia a criação coletiva. “Cada um pode começar um texto e fazer contribuições na produção do outro”, exemplifica Maicyra.

25.02.2010: Entrevista | Folha de Pernambuco

 

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Em razão da política de excesso que levamos na vida contemporânea, um punhado de palavras não basta – tampouco uma ou outra imagem que se embaralha em meio a tantas outras – para nos fazer brotar pensamentos reflexivos (tanto quanto as sensações de afeto). Essas passam despercebidas em nossas leituras diárias – cegas (e os sentimentos anestesiados) pelo demasiado. É como se um argumento, sob forma de palavra ou imagem, solto, estivesse destinado a um abismo irresoluto do imperceptível, promovido pelo sobejo. É (também) por isso que a arte se faz, hoje, tão necessária. Entendida não apenas enquanto obra-objeto, mas a partir daquilo no qual está fundada e instituída: consenso, dissenso, política, ambiente, cultura, economia, espaço, tempo… A imagem e o discurso na arte estão indissociáveis. Imbricados, podem ser como um soco, de punho bem fechado, na boca de nossos estômagos – que cada vez mais adquirem tolerância ao que por natureza deveria permanecer intolerável.

Embora a instituição arte já apresente sinais de muito desgaste, sobretudo no que se refere à sua complicada relação com o mercado, é (ainda) naquela que podemos vislumbrar uma potencialidade de diálogo emancipador. Refiro-me ao complexo processo de subjetivação possível na simples relação artista – obra – público. Subjetivação: palavra que soa espalhafatosa, mas a única que me pareceu melhor expressar aquilo que acredito ser a mais nobre camada da arte: tornar-se pedaço de alguém.

A obra que se deixa subjetivar cria, para além de si, uma rede de significados capaz de redimensionar as formas de olhar, até que finalmente se mudem também as formas de agir. Nesse caminho é que procuro percorrer as obras de Renato Valle. Um artista extremamente metódico quanto à forma, sensivelmente afetado pelos assuntos transformados conteúdos de seus trabalhos.

Intrigado pela estética abaulada recorrente na própria maneira de compor seus desenhos e pinturas, assemelhada aos ex-votos, lançou-se numa jornada investigativa daquilo que estaria por detrás da forma que lhe era tão familiar: apesar do artista já usar semelhante linguagem, não o fazia por conhecer profundamente os significados. Premiado com a Bolsa de Pesquisa em Artes Visuais no 45º Salão de Artes Plásticas de Pernambuco, foi à Santa Quitéria, um distrito do município de Garanhuns – abrigado no interior do estado pernambucano –, inteirar-se do universo dos ex-votos. Propôs-se a observar todo tipo de relações sociais e culturais que aconteciam em um santuário daquele lugar.

Uma vez lá, não poderia ter imaginado realidade mais agônica. Diante da miséria daquelas pessoas – munidas para enfrentar a vida, de múltiplas privações, com muito pouco além de uma imensa fé –, viu-se atormentado, entre tantas questões, pela mercantilização das coisas espirituais. Os ex-votos são objetos revestidos de uma dimensão fantástica aos olhos daquele que tem fé. Na certeza inabalável de ter conseguido uma dádiva alcançada por meio de sua crença, em um ato de gratidão, o crente devolve no ex-voto a magia que “transformou” em realidade o sonhado.

Poderosa, essa fé que impulsiona e é a ventura daqueles tantos (sem esta e por muito menos privações a maioria de nós, no lugar deles, daria a vida por encerrada), Renato a observou perversamente agenciada num universo mercantil (que nenhuma relação deveria ter com as coisas espirituais) em um modo capaz de paralisar o tempo, no qual não há fissuras para que exista qualquer mecanismo de transformação. Se por um lado, quem compra vê o encanto da sua fé materializado no objeto adquirido, para depois ofertá-lo, não é menos encantado (embora nem sempre pelas mesmas razões do crente devotado) tal objeto para quem o produz com seu suor e talento. Para aquele que vende, contudo, o ex-voto nada tem de mágico, senão na maneira de “fazer” dinheiro fácil. Ao que parece, os vendedores estão alheios a esta perversão do mercado da espiritualidade (há quem diga que se vive paralelo semelhante no atual universo da arte).

Abalado pela realidade encontrada, depois de um mês iniciou um projeto chamado Cristos Anônimos, que trata da dicotomia mística cravada na cruz: martírio e redenção. A pesquisa rendeu ao final da bolsa uma série de gravuras. Verticais, todas são estruturadas por colunas que formam cruzes de votos e/ou ex-votos, cercadas por imagens repetidas de partes do corpo de Cristo, retiradas de obras de outros autores, apropriadas e utilizadas pelo artista. A experiência desse processo também viria alimentar o seu Diário no momento em que representa homens, mulheres e crianças de braços abertos em situações de martírio e/ou redenção: uma mulher que se abre para acolher alguém num abraço, um goleiro que se prepara para a glória ou a vaia, um homem desnudo em completa vulnerabilidade… Anônimos também são esses tantos “Cristos” vistos e, na maioria das vezes, não percebidos.

Durante a construção do trabalho, a simbologia católica ganha cada vez mais peso em suas reflexões. Num passo não muito distante, voltou-se também a si mesmo, à própria religiosidade, distinta do catolicismo, ainda que igualmente cristã, desde os primeiros desenhos que formam o seu Diário de Votos e Ex-Votos. Tal diário não só é um registro iconográfico de acontecimentos pungentes (tanto sociais, quanto pessoais), mas também exercício de uma dimensão espiritual da compaixão. Por um lado, Renato Valle – sempre apegado às suas pesquisas da forma – experimentava diversos tipos de grafites, desenhos com palitos (revelados pelo pó cinza), ou tipos de cores que enriquecessem o preto a ser impresso sobre o papel bege que formaria uma gravura. Por outro, na experiência do diário vivia uma catarse. Para cada desenho, existe um “voto”, um pedido em favor da resolução de um drama (naquele momento ele se via coapaixonado, coenvolvido) – como no conjunto de 243 desenhos de crianças desaparecidas, feitos a partir de imagens retiradas da página do Ministério da Justiça, com a exceção de uma foto que ilustrava a página de um jornal –; ou um “ex-voto”, como forma de agradecimento por aquilo que tinha sido sanado.

De volta ao que comecei dizendo: ora, nem um punhado de palavras, nem uma imagem esvaziada, por estar em meio a tantas outras, são capazes de nos mover do estado de inércia que nos acomete nessa existência que levamos: de um muito, tudo. Acostumados com o excesso, tornamo-nos incapazes de absorver (sobretudo, reflexivamente) as graves questões que dia a dia nos ameaçam. Nesse sentido, é que penso na arte como uma agenciadora de mudanças.

A instituição da arte, entendida, além da obra-objeto, como o ambiente que essa cria – sua própria economia, sua própria política – pode deslocar situações do cotidiano de modo que as possamos enxergá-las. Senti-las. E nessa direção, torná-las parte de nós e, por nossa conta, talvez, causar alguma alteração externa. A subjetivação, como é possível perceber, está na criação e recepção da obra. Absorvendo a política de excesso da vida contemporânea, Renato a desloca e a ressignifica no paradoxo, sensivelmente criado, de síntese e excesso (imagens e discurso imbricados), em sua obra-diário, sempre munido de compaixão. Se pelo excesso do nosso diariamente nos anestesiamos, pelo seu excesso constituído unidade-obra, Renato dá-nos a chance de uma leitura que não seja mais cega. Resta saber, depois de termos sido expostos a tudo isso, o quanto vamos tornar nosso, o quanto nos coapaixonaremos. De outro modo, terá sido apenas mais um soco – como tantos outros que passivamente aprendemos a levar, tolerando o intolerável.

 

Superflex na Fundaj

15 de dezembro, às 19h

Galeria Vicente do Rego Monteiro

Debate a partir do filme Flooded McDonald’s / McDonald’s Inundada, do SUPERFLEX, em exibição contínua na Galeria Vicente do Rego Monteiro, com a participação de Angela Prysthon (PPGCOM/UFPE), Beth da Matta (Artista/Diretora do MAMAM), Márcio Almeida (Artista/Gerente de Artes Visuais da Prefeitura do Recife), Ana Luisa Lima (editora da Revista Tatuí de Crítica de Arte) e artistas convidados.

 

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