Nesses dias voltei a viajar. Peguei o último trem que sai às 23:55 e retornei a 2011. Já não lembrava o quanto naquela época viver era essencialmente bobo. O exercício da desmemória aliado ao desrecurso do tempo ajudava a consciência a não se importar com algo mais que fosse além do hoje. Os jogos de sedução provavelmente eram o que se tinha de melhor a fazer. Investir-se numa relação imaginária, talvez, a maior das aventuras.
As relações de afeto eram das mais engraçadas. Refletiam o momento em que a política tinha-se tornado a maior das grandes piadas. Comemorava-se a primeira mulher na presidência da república, tanto quanto o primeiro palhaço analfabeto no congresso. Tudo era demais.
As grandes palavras já não eram democracia, justiça, liberdade; mas, no fim do dia, os vestígios dessas nos seus de, com e para. Ainda se fazia pouco caso da utopia embora o despotismo naquele momento houvesse caído depois de dezenas de anos como lastro nas terras do outro lado do oceano.
O mormaço tinha resolvido que deveria invadir todas as regiões, a despeito das linhas invisíveis tropicais. Os bares se tornaram a ágora. Por todo o país, eram o lugar das discussões de interesse público. As cervejas, estupidamente, geladas, davam o tom de solenidade. Mas ficava difícil discutir qualquer coisa seriamente que não fosse futebol. Diante da fragilidade dos argumentos, a pilhéria tomava lugar. Tomar partido durante as campanhas eleitorais era contribuir para que o candidato da oposição fosse mais degradado que o seu próprio. Futebol não, unânime a urgência de trocar o técnico da seleção nacional.
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O cinismo havia nos fecundado culturalmente. Apesar do decreto de sua falência, a crítica de arte não sucumbia. Continuava em sua missão confortável de manutenção das ficções. E aqui cabe lhe lembrar que não eram em si maléficas. Quando falo em ficção, não penso que seja uma criação absolutamente mentirosa, muito pelo contrário, foi através das invenções que hoje temos o que temos. Agora, em 2046, a vida só é possível pelo o que fora (re)inventado no coração de uns poucos.
O que por ora trago à memória com certa angústia é rever que o papel da crítica tinha-se entregado tão somente à demanda institucional e de mercado, nunca à necessidade coletiva ou mesmo individual. Era apenas mais uma articulação dentro da grande engrenagem chamada de – naquele tempo – campo da arte. O exercício da crítica já não era crítico. Mas algo dedicado à sedimentação do que fora anteriormente sugerido. Não havia debate. Já não havia conflitos. Os poucos textos que desafinavam junto àquele grande discurso uníssono eram tidos como recalque. Os ouvidos não eram para ouvir.
Não havia a audácia de outros olhares sobre os mesmos trabalhos. Não sei se por preguiça, desinteresse, ou mesmo falta de coragem. Por exemplo, o trabalho daquele artista que incitou o uso clandestino das cédulas e garrafas de Coca-cola para mandar mensagens subversivas nos anos 1960 continuava sendo celebrado e em nenhum momento reavaliado naquele outro contexto não mais de política ditatorial. Junto com o trabalho da fábrica de picolé autogerida e de economia não sustentável, aqueles outros foram revestidos do discurso de uma prática crítica frente às lógicas das estruturas capitalistas.
O que era notadamente cínico, porque embora o artista afirmasse que seu trabalho não era os objetos de fato, mas a proposição; as mesmas lógicas de mercado que supostamente os trabalhos criticavam davam conta de absorver os objetos residuais dessas proposições, criando especulações de valor ainda mais perversas. Os resíduos-materiais das obras se tornavam commodities com anuência e por vezes assinatura do próprio artista.
Assim, o que tinha o potencial de ser uma prática revolucionária simplesmente se esvaía; os trabalhos se tornavam meros comentários de uma possibilidade de revolução. Comentário cínico e perverso por alimentar sem inocência a grande máquina, e ainda ganhar status de único criticismo possível. Não à toa, havia se desenvolvido os estados conformistas. A partir dali eram muitos os trabalhos, textos e curadorias reféns de si mesmos. Excessivamente discursivos. Nenhuma possibilidade de entropia.
Ao que antes era arte, deu-se lugar aos seus múltiplos. O fetichismo animava a produção dos artistas bicho-da-seda, ou mesmo joão-de-barro – quando em tempos e tempos se celebrava a gambiarra, o precário.
E agora que não há capitalismo. Ver aquilo sustentado com tanta resignação de discurso é essencialmente bobo. Como tudo naquele tempo. Em que se faltava vontade. A utopia, na verdade, não havia morrido. Mas era como um desses amores bandidos. Poucos tinham coragem de assumir que era com ela que estavam enamorados.
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Como regidos por uma batuta, procurariam pelo pequeno aparelho em seus bolsos ao mesmo tempo. Os chiados. Era como o afinar dos instrumentos. Vai começar: mais um jogo.
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Março de 2046,
¹este texto traz referências (in)diretas aos seguintes autores: Daniela Castro, Mário Pedrosa, Moacir dos Anjos, Vladimir Safatle, Wong Kar-Wai.
* Texto publicado na revista (revista), março de 2011.



