É sempre necessário um bom tempo de leitura e (releituras) da história tal qual nos é contada para começarmos a perceber as entrelinhas: os contextos, os pré-textos, os lugares da fala dos que nos contam sobre nosso passado. Não raro, o que “ficou” para trás é celebrado, mas apenas as porções que contingentemente interessam aqui no presente; o resto negamos. Ou fazemos pouco caso.
Celebramos Dom Pedro I e a independência (que não veio) e nos furtamos de enxergar tantos movimentos independentes que reclamavam autonomia do seu próprio país. Muitos sangraram, pereceram antes do (mitológico) grito. Ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil. Ainda assim celebramos o Dom, mesmo sem a pátria efetivamente livre, e me questiono se nosso Pedro alguma vez esteve próximo de morrer pelo Brasil. Fazemos festa para Isabel e esquecemos os torturados líderes junto aos seus irmãos negros e outros abolicionistas; tantos mortos em nome daquela pátria mãe gentil (para a economia da época, nem sempre foi uma questão de cor).
Não se trata de negar, absolutamente, que os atos de Pedro I e Isabel foram importantes para algumas mudanças necessárias naqueles momentos. Contudo, é ingenuidade pensar que eles sozinhos foram precursores de quaisquer mudanças. É preciso acabar com os heróis. Tanto quanto os anti-heróis. A ideia de heroísmo só torna embaçada a possibilidade de enxergar a força das ações coletivas.
Arbitrariamente – como a cor do céu no Recife a despeito das estações do ano: um dia é azul, outro cinza –, celebra-se Oswald e a Antropofagia. E a questão não passa por deixar de celebrá-los, mas de lembrar que antes do paulista (ou em momento simultâneo), já havia outros modernismos, entre estes, o pernambucano que, provavelmente, foi influência para aquele (e vice-versa) – assim aponta Paulo Herkenhoff.
Trago à tona esse panorama para que pensemos o SPA das Artes. Nos últimos anos, só se fala de sua crise. Pergunto-me: do quê ao certo? Na tentativa de me posicionar no presente fui em busca do passado (ainda que recente, mas para maioria nós já tão distante porque desmemoriados – destino?). E ao ler a história viva sendo contada ali do meu lado, dei-me conta de que o SPA tem sido construído, desde o início, por uma coletividade. Ora, não veio de um a concepção do evento. Eram muitos os grupos que atuavam naquele momento-gênese, e não o faziam de forma pontual, estavam embalados por uma vontade coletiva nacional de mudança na raiz daquela ordem político-governamental.
Mudou-se o governo, mas não a forma de pensar e fazer política, ainda assim, este contribuiu para que acontecessem ações importantes no âmbito da cultura que possibilitaram certo frescor no campo das artes. E dentre tantos exemplos nacionais, temos o SPA. Se há uma crise, é pouco provável que seja do evento.
Não é preciso ir muito longe de Pernambuco para perceber a sensação de incômodo. Passaram-se quase dez anos e já não há frescor. Muito pelo contrário, deve faltar muito pouco para que cheguemos ao completo colapso. As políticas públicas não se fazem suficientes. A “geração” 2000, no entanto, acostumou-se a ver cada vez mais forte a institucionalização da arte (será que algum dia aprenderá a viver sem editais?). A crise é geral e advém elementarmente da falta de vontade de posicionamento: no pensar e no agir. Se fala mal da instituição e do mercado, mas os querem desesperados e tolamente: quando fazem com que suas produções (sejam artísticas e/ou teóricas) sejam apenas ativadas pelas demandas daqueles.
Penso que resolveremos a crise (ou daremos um passo para) quando minimamente soubermos de qual arte estamos falando. Aos poucos fui dando-me conta de que quando falamos em arte, não a compreendemos coletivamente nos mesmos termos. Contudo, uma maioria, de maneira pragmática, resolveu (querer) entender arte dentro de um sistema específico de legitimação institucional-mercadológico.
Esse assunto tem urgência por ser debruçado em busca de uma discussão. O pensamento capitalista reificante já está tão entranhado que quando se fala em valor de uma obra associa-se imediatamente ao valor de mercado. Mas e o valor imaterial-simbólico? E o seu valor enquanto acontecimento? Penso que a obra de arte traz em si valores capazes de ativar outras economias que não só a do capital. O que vende hoje, ou não, não deveria ser imediatamente um problema. A proposição de arte que não tem lugar para acontecer, que não está próxima e acessível, que não se pode fruída, seria isto com o que deveríamos estar mais preocupados. Pensar, por exemplo, política pública como algo que nos assegure a permanência de coleções de arte (acessíveis a todos) substanciais em nosso país.
Ao invés disso, as forças e vontade de mudança logo se arrefecem quando políticas públicas são, por vezes, levianamente, criadas para cumprir demandas muito específicas de escoamento de uma produção de arte também muito específica: jovem. Porque fácil de fazer especulações de valor de mercado sobre. Daí se justificam os mapeamentos feitos por instituições privadas e tantos outros eventos e formatos megalomaníacos de exposições (todos estes com dinheiro público).
Se formos pensar o SPA das Artes nesses moldes, de fato, há uma crise. O orçamento do evento foi encurtado, nesse sentido, também o valor disponível para a disputa por um pedaço deste através do edital. Eu prefiro pensar, contudo, arte e SPA das Artes sob outro foco.
Talvez devamos aproveitar que o termo “artes visuais” já não consegue abarcar a quantidade de linguagens, assuntos, ações, proposições hoje entendidos como campo de atuação da arte contemporânea, para mudá-lo e com isso também deixar para trás as associações equivocadas em torno da arte e mercado. Híbridas, conectadas, entrelaçadas, as linguagens redefinem parâmetros, reposicionam fronteiras. Por que não chamá-las apenas de experiências estéticas?
Despida dessa veste supérflua (especulação de mercado) o que fica da arte é a experiência estética capaz de ativar não só construções de subjetividade quanto economias diversas que não só a do capital. A arte pulsante desperta a experiência nua: porque de uma verdade só possível encarnada – percepção, vivência, embora por vezes compartilhada, única daquela pessoa. Diferente se fôssemos pensar a “experiência pura” como se pudéssemos atribuir uma única verdade, um algo ligado à essência e distante do corpo.
Na experiência estética, enquanto experiência nua, faz-se um lugar de construção da subjetividade através da troca simbólica capaz de acionar a (re)invenção do espaço, do tempo, do uso vulgar das coisas e situações cotidianas. Um lugar político por natureza, onde são possíveis as construções simbólicas coletivas: imaginário comum, não no sentido de igualdade, homogeneidade, mas de compartilhamento. Se pensarmos em experiência estética como acontecimento – e penso mesmo que a obra de arte é acontecência, deixa-se acontecer sempre a quem se dispõe ao encontro –, é possível entendê-la como algo que reverbera e extrapola a experiência do corpo de um indivíduo apenas.
É preciso pensar o SPA das Artes para muito além de mero provedor de bolsas para produção de obras de arte (e legitimador destas). Sonhado e concebido, desde o início, por grupos que se posicionaram e buscaram por transformações sócio-políticas através da coletividade, o evento ainda consegue se resguardar como um agenciador de experiências estéticas e estésicas – porque também afetivas. Não à toa, construíram-se, a partir destas experiências, relações interpessoais diversas. Estas formaram redes que deram conta de criar outros eventos-irmãos como o Fora do Eixo(DF) e o S.E.U.(RS).
A cada nova edição, coordenadores, produtores e demais colaboradores do SPA procuram (re)pensar seu formato em busca de torná-lo cada vez mais democrático: tanto na forma da distribuição de bolsas de incentivo para produção de obras (experiências estéticas), quanto no que diz respeito à recepção destas pelo público, sobretudo, local. Ainda assim, há os que (inertes) apenas reclamam da crise, como se não fossem co-responsáveis. Talvez estes sejam os criadores, porque também esperam por eles, dos heróis. Mas, se for uma questão de tradição brasileira e resolverem escolher um para herói ou santo – sou a favor dos dias de ócio em que se pode sentar com amigos para algumas cervejas –, não se deixe de celebrar os outros tantos.
Daqui a muitos anos, quando eufóricos quiserem beber e se alimentar antropofagicamente desde nosso momento, saibam que nos construímos, como pessoas e como história, de alegrias e feridas. Tomara que ao celebrar tal santo herói tenham em mente que até este foi construído por Joãos, Márcios, Beths, Fernandos, Josés, Maurícios, Paulos, Rodrigos, Moacires, Julianas, Clarissas, Danieis, Jomards, Anas, Raízas, Fernandos, Danielas, Irmas, Maíras, Camilas, Krishnas, Michelines, Maicyras, Brunos, Lucianas, Lúcias, Marias, Aslans, Izidórios, Alexes, Fernandas, Fabianas, Manuelas, Marcelos, Renatos, Eduardos, Lauras, Ophelias, Bárbaras, Gils, Cristianos, Diogos, Marianas, Jonathas, Flávios,
ReviSPA 2010, setembro.
Oi Ana Luiza,
Cheguei aqui no seu blog pelo facebook do Hugo Menezes. Não sei o qto vcs se conhecem. “A esta altura” que estamos neste mundo das redes, os nós estão exponenciais.
Passei pelo teu blog, lendo este e alguns outros textos. Gostei do teu olhar e posicionamento.
É bom ler quem escreve bem e traz um ponto de vista próprio sobre o que estamos vivendo. Na maioria das vezes tenho a impressão de que a grande maioria está anestesiada e não se para para perguntar sobre estas coisas essenciais: amor, engajamento, utopia; como elas estão transitando os discursos e formas de relação contemporâneas.
Sigamos!
Um abraço, Carla Vergara
Olá Carla,
Tive o privilégio de conhecer o Hugo num curso de história da arte brasileira que fizemos em Recife. Adoro esta figura pelo muito bom humor, sensibilidade e inteligência. Nos reencontramos recentemente no Rio e foi uma delícia.
Obrigada pela visita e pelas palavras.
Penso que a possibilidade de transformação das situações está intimamente ligada ao engajamento da sensibilidade. Me confesso condenada à utopia e à pieguice.
Se puder, fique por perto. Continuemos esta conversa.
Grande abraço,
.a
Oi Ana Luiza,
Te mando os endereços para me visitar:
(1) http://misticasfemininas.blogspot.com/ é o meu blog de poesias, prosas e afins.
(2) http://metodologiaangel.wordpress.com/ é o blog da minha turma na Angel Vianna, para o qual eu colaboro.
São ambos por um mundo mais sensível ;-)
Hugo é mesmo uma figura querida. O conheci na minha casa, qdo ele veio para uma roda de poesia pelas mãos de um amigo em comum. Ele é adorável e as conversas são sempre alimento para a vida.
Bjs, Carla
A crise é sistemática e daqui de Recife tem se pensado sobre o tema de modo disperso, mas a reflexão tem acontecido. O Texto de Souza Viana sobre descolonização e descolonialização que faz uma reflexão sobre nossa relação de dependência (http://cincobombas.blogspot.com/2011/09/descolonizacao-ou-descolonializacao.html).
O mote para o texto de Viana foi o texto publicado no blog Amálgama (http://www.amalgama.blog.br/09/2011/descolonizar-o-pensamento/) que reflete sobre o modo como pensamento atual está atrelado ao outros pensamentos, onde muitas vezes as fontes e iniciativas que temos não parecem suficientes para legitimar os atos e os pensamentos. No fim das contas o mal não está nem em pensar ruimente, mas viver uma eterna filiação e nunca pensar por si próprio, nunca dar este primeiro passo no pensamento de forma autônoma, ou seja, a partir do pensamento já formulado conseguir repensar a nossa própria relação dentro de nossos contextos de forma singular.
Penso que este texto coaduna com os dois citados, observada as particularidades. Estamos todos ciosos de liberdades. Nosso tempo é o da inquietude, pelo menos para os que estão com uma antena ligada ao que acontece ao nosso redor. O tipo de relação que temos estabelecido com as coisas é de parasitismo. Inquietude é a evocação do dionisíaco.
Thiago Alex (http://www.facebook.com/profile.php?id=100000982528794&sk=info)
Você inteligentemente disse que “uma maioria, de maneira pragmática, resolveu (querer) entender arte dentro de um sistema específico de legitimação institucional-mercadológico”. Financiar produções artísticas induz, de certa forma, uma legitimação institucional da arte? É isso que você quer dizer?
Se for, concordo.
O pessoal da escola de Frankfurt já pensou a indústria cultural antes dela atingir seu auge político (hoje?). Na época, era a ideologia, pautada no controle. Hoje, o perigo está nessa salvação exacerbada, refletida em Políticas Públicas de Financiamento da arte, significando uma espécie de liberdade pós-moderna.
O problema é que na liberdade não existe democracia, porque o termo liberdade carrega a súmula semântica do conceito de verdade. E como são, ambos, conceitos impossíveis, essa democratização, pautada na possibilidade de oferecer financiamento para que artistas produzam, causou uma espécie de tiro pela culatra: os artistas agora só produzem financiados.
Você que disse isso: “e o valor imaterial-simbólico da arte? E o seu valor enquanto acontecimento? Penso que a arte traz em si valores capazes de ativar outras economias que não só a do capital”. O problema é que o significado do conceito de liberdade (assim como o de verdade) ainda está preso em uma semi-estrutura tradicionalista (herança imperial que Pedro e Isabel deixaram de suas condutas “libertárias”).
Não que seja de todo ruim: cultura tradicional é importante, é identidade. Constrói um padrão-necessário para “ser o que somos”. Mas nem tudo que é tradicional é popular. E não existem Adornos contemporâneos para explicar isso para os órgãos de fomento de cultura do Brasil, porque a lógica de funcionamento desses órgãos é mercadológica (ou mercantilista, para reavivarmos mais uma vez a nossa memória Histórica).
E a arte não pode ser “um/a herói/ína”. Seu comentário: “Essa ideia de heroísmo só torna embaçada a possibilidade de enxergar a força das ações coletivas” foi dos comentários mais conscientes que li esses últimos dias. Se arte é significância em seus processos de subjetivação, possibilita então a ressignificação de memórias coletivas que pairam até então de uma História torpe e europeizante.
Nesse sentido, financiar somente “alguns escolhidos” para sua produção, pode ser mais que perigoso. Pode ser devastador. Financiar todos é impossível. E maisdo que isso, é imoral. A arte não é negócio. Pode funcionar como um, mas não tem sentido em si mesma funcionando como termômetro cultural da “inteligência” de uma cidade (inteligência no sentido do alemão “kultur”, de onde veio nosso conhecidíssimo e tão debatido termo “cultura”, para relembrarmos mais uma vez nossa construção histórico-social: o “culto” é aquele “iniciado em artes e em letras”). Muita gente pensa assim. E falo de gente do governo.
Não estou aqui querendo dizer como as coisas devem ser. A questão é que, se não sabemos como devem ser, podemos, ao menos, perceber como não devem.