Sobre Caroline Valansi
Terra Una, 20 de março de 2010.
“São as próprias coisas, do fundo do seu silêncio, que deseja conduzir à expressão.”
Merleau-Ponty em o Visível e o Invisível.
“Então, o artista, na produção da obra, tem que mostrar – não é uma questão voluntária, é uma necessidade existencial –, todas as suas raízes, todas as suas experiências, todo seu processo de formação estética, e todo o seu sentir: sua afetividade está relacionada com sua vida cotidiana. Tudo isso recolhe, por um lado, toda sua tradição – porque ele é esta tradição – e necessariamente vai se mostrando em tudo que produzir.”
Jesus Torres Vázquez, em entrevista para revista Tatuí número 4.
A experiência do salto; ou, como ser Libre1
Hoje, nada mais raro do que um artista que se permite um salto “Libre”sem suas redes de segurança procedimentais que sempre lhe asseguram o discurso da coerência. A necessidade de controle – do discurso e da forma – é sintomática nessa geração que surge nas universidades, notadamente, nos anos 2000. Mergulhado numa realidade mercadológica, na qual a arte se mostra cada vez mais ativada apenas por esta demanda, fica a pergunta: onde andará a necessidade criadora (a pulsão-criativa) do artista?
Pulsão de vida e de morte, prazer e angústia, diluíram-se nos modos do fazer contemporâneo (?). É curioso perceber que a arte antes pensada como um “exercício experimental da liberdade”2, agora, para muitos, é só exercício, procedimento, longe de ser uma experiência da liberdade. O experimental parece só se potencializar quando há demarcações de limites. Diante da liberdade, da possibilidade plena de todas as coisas, prefere-se menos o risco. Paradoxalmente, embora não haja, na contemporaneidade, um programa estético comum, o excesso das repetições formais e de assuntos tacitamente formaram cânones – de processos, discursos e visualidades.
O procedimento em si não é um mal quando meio e não fim. Pode ser um grande aliado do artista ajudando-o perceber a potência dialógica dos materiais (concretos e abstratos). Nessa direção, podemos pensar os trabalhos de Caroline Valansi.
Com formação em fotografia e cinema, não à toa é possível perceber, na maioria dos trabalhos de Caroline, o cuidado meticuloso com os elementos compositivos: enquadramento, luz, cor… Mas ao vislumbrar que tal background lhe dava uma espécie de lugar seguro de atuação, em sua passagem por Terra Una, optou pelo salto, por explorar outras possibilidades para além do fotográfico – sem necessariamente abrir mão do uso da fotografia ora como matéria, ora como linguagem, ora matéria e linguagem simultaneamente.
A obra Trans-forma carrega em si a síntese – bastante intrigante – de um trabalho que se pretende formal, mas se mostra afeito à narrativa. Ao fazer uso da fotografia como matéria, Caroline mistura este elemento cultural à natureza (raízes e terra) criando, na forma, um embate dessas vozes tão distintas, ao mesmo tempo que, juntas, tais vozes tornam-se o argumento que cria a possibilidade de ricas narrativas.
No desenvolvimento do trabalho Trans-forma, a artista se viu questionada pelos elementos naturais. A partir de então, começou a coletar e inventariar tipos de raízes, ninhos de pássaros e cascas de árvores. No processo de inventário das raízes, surgiu a série de gravuras-desenhos feitos por frotagem com grafite e pastel oleoso. Do estudo dos ninhos abandonados pelos pássaros, percebeu que estes eram feitos de raízes. Nesse percurso, voltando a sua própria raiz (para sua avó materna que lhe é a referência no uso da costura) começou a intervir nos ninhos fazendo costuras com linha vermelha, como se quisesse devolver a estes ninhos – agregando a estes o significado de sua própria história – o status de lar.
Na reconstrução dos ninhos, deu-se conta da repetição do uso da linha vermelha como elemento formal3. Isso fez-lhe questionar se a presença da linha4 seria mesmo uma necessidade-significado ou o uso excessivo de uma fórmula. Dessa interrogação surgiu o trabalho Ninho de Gente que se trata de um objeto/escultura e algumas séries fotográficas.
Ninho de Gente acaba por ser a resposta aos questionamentos feitos pelos elementos naturais e por si mesma . Na construção do objeto, Caroline abandona todo e qualquer elemento cultural (embora use a costura como método) fazendo-o apenas com cipó, palha e mato. O ninho feito para gente devolve à natureza a pergunta sobre o natural e o cultural.
Embora a priori pensado para ser apenas objeto/escultura, Ninho de Gente acabou se tornando (também) séries de fotografia quando começou a ser fruído espontaneamente. Tomadas pelo exercício de plena liberdade, as pessoas propunham novos lugares e maneiras de fruir. As imagens feitas a partir dessas experiências são, sobretudo, um diálogo sincero entre artista, obra e público. Não à toa que cada proposta de fruição carrega também a possibilidade de uma nova narrativa. Cada imagem da série é uma síntese dos desejos tanto da artista, quanto do público, por isso mesmo que se sustenta enquanto obra individualmente e quando em conjunto. Sob estas mesmas perspectivas, o trabalho Rio Seco foi construído – feito de terra e cascas de árvores.
A necessidade de coerência – formal e no discurso – responde mais às demandas de mercado, menos à pulsão criadora e criativa do artista. Na experiência do salto, não há garantias de uma aterrissagem segura. Mas, o certo é que a insegurança imbricada nessa vivência há de sempre reinventar possibilidades de novos voos. E quem voa não se afasta do que é e do que faz. Afasta-se apenas do lugar seguro, previsível. Deixa de lado a coerência (lógica e linear) e vive a consistência: sua maneira de estar no mundo e que nesse sentido todas as construções estão impregnadas do que é (ainda que sempre gerúndio).
1Libre, 2005, é o título de uma série em fotografia de Caroline Valansi que fala da liberdade na possibilidade de um salto de alguém despido apenas ‘amparado’ por um imenso céu azul.
2Palavras de Mário Pedrosa, 1968.
3 na série Memórias Inventadas em Costuras Simples, 2006-2009, a linha vermelha é elemento formal e assunto.
4Essa mesma ‘linha vermelha’ também aparece como elemento formal no trabalho Ressonâncias da terra, 2010, Terra Una.