Por uma política do fracasso | Elen Braga

 

“O que importa é trabalhar com o conteúdo do fenômeno, ao invés, de ficar preocupado com o destino da palavra.”

Milton Santos1

 

 

O culto ao êxito

Não é preciso conhecer muito de retórica para dar-se conta de como um discurso pode dobrar um conceito sempre que necessário reafirmar uma cultura hegemônica. Os conceitos de Democracia, Justiça, Bem Comum, etc, nunca sequer tiveram a chance de realizarem-se, na prática, para aquilo que foram idealmente construídos. Isso porque a própria construção desses conceitos esteve alicerçada em formas de ser e estar no mundo que nunca tiveram a intenção de incluir todos os tipos de pessoas. Pior, esses só passaram a existir (e ainda existem) para reafirmar a hierarquia de uma cultura sobre as outras, ou um grupo sobre os outros, ou ainda, um gênero sobre outro, como coisa natural.

Sempre bom ter em mente que ninguém politiza-se ou educa-se por si mesmo. A informação pode ser uma busca individual, mas o conhecimento só existe dentro de um senso de comunidade. É arrebatador reconhecer tantas contradições dentro da Comunidade Mundial _eu prefiro entender-nos assim, apesar de ser um fato de que não exista qualquer interesse das culturas hegemônicas pensar em compartilhar um Estar-Juntos na Terra de forma igualitária_ no entanto, não há outra maneira de reconstruir o sentido da Justiça, Democracia e tudo o mais, se nós não reconstruirmos um sentido de ser e estar no mundo, não como iguais, porque não somos de fato, mas como equidistantes em valor, e assim moldar um senso de Comunidade Global.

A despeito da sua absoluta ineficácia em produzir equilíbrios _o ‘laissez-faire’, muito pelo contrário, criou abismos políticos e econômicos, bolsões de extrema pobreza e instaurou um modo de estar no mundo que põe em xeque a própria existência da humanidade_, os modos do capital foram exitosos em criar um lastro que tem assegurado a permanência desse sistema ideológico enquanto condição de humana de sobrevivência, que costumamos dar o mesmo nome do sistema econômico. Sobretudo, na sociedade Ocidental, ainda que constantemente ameaçado por crises, o Sistema do Capital, ou Capitalismo, conseguiu conquistar para si seu maior aliado: o vigoroso Ego.

Ludibriado pela ideia de emancipação individual, sob o lema do mérito pelo próprio esforço, uma propaganda bem-sucedida da Era Tatcher2, o Ego tem sido o grande protagonista desse modo de conceber o mundo que só se sustenta na ‘Ficção de Superioridade’ que estabeleceu hierarquias reais: a humanidade sobre as demais espécies, algumas culturas sobre outras, alguns grupos (sociais, étnicos, etc) sobre outros, o homem sobre a mulher, algumas mulheres sobre outras mulheres e os sempre submissos: crianças, idosos, os considerados loucos.

A contemporaneidade só veio reafirmar essa narrativa neoliberalista de que a despeito de qualquer disfunção política, econômica e social, o sujeito é, por esforço e mérito pessoal, capaz de superar a tudo isso e tornar-se bem-sucedido. Não à toa que no auge de uma crise econômica sem precedentes, porque, dessa vez, completamente, desamparada de qualquer utopia geral que possa criar qualquer movimento de desejo em torno de um objetivo comum, a ideia de protagonismo pessoal enreda com eficácia o Ego. Não é de se estranhar a quantidade de posicionamentos políticos e sociais contraditórios como “um pobre de direita”, “uma mulher machista”, “um preto que acusa o outro de vitimista”. Em cada um desses, existe, claramente, um desejo de superação individual, muito mais do que a simples incompreensão de seu lugar social de fala.

A vitória no fracasso

Penso que um dos grandes desafios da artista em relação a sua produção é, para além de conseguir elaborar um vocabulário estético próprio, a capacidade de abrir novas formas de entender e experimentar conceitos já postos no mundo. Elen Braga tem construído trabalhos com densidades para estabelecer diálogos profundos com os mais variados campos de conhecimento: filosofia, religião, política, etc. Apesar de diversos em motivações para existirem, os trabalhos, em conjunto, estabelecem pontos de fugas sob os quais é possível delinear discussões a partir do que parece ser o elemento essencial do seu vocabulário estético: o Corpo.

Esse Corpo, quase sempre da artista, a cada trabalho assume a mirada de um sujeito que protagoniza uma narrativa. Esse sujeito já foi subjetivo, social-histórico, de gênero. Vale ressaltar que esses sujeitos-protagonistas nem sempre aparecem de forma clara, em alguns momentos, sobrepõem-se complexificando uma narrativa que costuma se colocar em simplicidade. Ao assumir uma mirada, não quer dizer que a narrativa que se desenvolve permanece estática em sua possibilidade de recepção. Muito pelo contrário, as condições fenomenológicas de espaço-tempo sempre atravessam as leituras, e esse é o dado que indica o caráter político de seus trabalhos. A não afirmação de possibilidade única de leitura e o desejo de não condensar num único discurso sua produção fazem com que os trabalhos ganhem certa autonomia ao existirem no mundo, tanto quanto que, para quem frui, fica salvaguardado sua pulsão criativa-criadora (subjetividade) junto às lacunas que os trabalhos propõem.

Ainda que sejam múltiplas as miradas promovidas pelos sujeitos-Corpo, os trabalhos de Braga parecem sempre trazer em algum plano _seja pela afirmação, ou pela negação_ aspectos da ‘Ficção de Superioridade’. Pela afirmação, os trabalhos como “Mesa para luta de braço, 2012”, “Cabo de força, 2012”, “Estudo sobre golpes de luta, 2013”, “Luta de iniciação, 2014”, “Performance, 2016” trazem o Corpo-sujeito em situação de embate: de um lado, há desejo de superação pessoal; por outro, tratam _ora com certa ironia, ora com contundência direta_, da mera afirmação dessa informação social criada em que haveria de fato indivíduos mais aptos a serem melhores do que outros. “A grande honra ao mérito, 2016” põe em destaque essa condição individual de desejo de superação, como imaginário social, em que se celebra “os melhores indivíduos” ainda que sob pretextos e titularidades que podem soar banais, mas que, ainda assim, conferem aos seus ganhadores alguma forma de pertencimento social através da titularidade conferida.

Pela negação, os trabalhos que compõem “Os 12 trabalhos”: “A Rocha, 2013”, “O Vento, 2014”, O Sol, 2013-2014” já de partida negam qualquer superioridade. Muito mais que isso, consciente de seu fracasso diante do embate proposto com cada ‘Antagonista Natural’, a artista devolve para si sua humanidade sem ficções. “Os 12 trabalhos” de Braga atuam no completo oposto do mito de Hércules. Enquanto o mito vem afirmar a força e a resiliência como ferramentas de conquista e afirmação de superioridade sobre o Outro, Braga desmantela qualquer tipo de mito a ser cultuado, tanto quanto desfaz a ideia de superioridade pelo simples fato de revelar que qualquer um em sua situação estaria fadado ao fracasso. Nesse sentido, fica silenciosamente demonstrado que todos os seres humanos são iguais. Se em Hércules há a mitologia que justifica as ‘Ficções de Superioridade’, os “Os 12 trabalhos” de Braga são, em si mesmos, rituais de passagem que revogam o pesaroso mito de ser o impossível-superior, o supra-humano, e reconstroem a ideia de plenitude e liberdade a partir do fracasso.

Dos padrões de medida

Nos últimos pouco mais de dez anos, um movimento ‘Decolonial’3 tem dado alguns passos numa busca de reestrutura e reparação de uma história, até então, escrita com tintas de colonialismo e subserviência. Teorias reconstituintes têm-nos levado ao exercício do pensamento crítico em torno das polaridades construídas: Norte e Sul, Centro e Periferia. Ainda que através desse movimento, de também desconstrução teórica, as vísceras das ‘Ficções de Superioridade’ tenham sido expostas, esse processo ainda está muito longe de criar mudanças substanciais nas formas hegemônicas de ser e estar no mundo. Ainda são muito arraigadas, sentidas como coisa natural, as concepções de dever-ser instauradas a partir desses modos de dissimulação. Concepções essas que se percebem no macro a partir da hegemonia de algumas culturas sobre as outras, até chegar no micro. Nesta última instância, a coisa não só se dá de forma aparente, como nas situações claras de preconceitos. Mas, sobretudo, em suas versões mais perversas de estruturações de “boas condutas” e “bem viver” que impõem padrões estéticos, morais e emocionais sob os quais todas as pessoas devem conformar-se para ser um indivíduo socialmente aceito.

Corolário das ‘Ficções de Superioridade’, as ‘Ficções de Bondade’ atuam com garras afiadas, ainda que de modos sutis, em favor da permanência das hierarquias forjadas responsáveis pelos modos subservientes de existir. Na ‘Ficção de Bondade’, a ‘Ficção de Superioridade’ sorrateiramente catequiza sob pretextos de benefícios e elevação do catequizado. O que ocorre, no entanto, é um completo desmoronamento do sujeito, tirando-lhe o lastro identitário, colocando-o numa perspectiva ideológica que contradiz sua própria existência. A subserviência acaba sendo a única possibilidade de construção do seu modo de existir porque almeja um lugar que já está negado na sua própria essência constitutiva: um afrodescendente jamais será ariano ainda que opte por escolhas estético-culturais brancas, uma mulher de bioestrutura robusta jamais chegará à magreza e aspecto de fragilidade estético-midiático, ainda que siga dietas alimentares, etc.

Em Elen Braga, esses processos de conformação do sujeito aparecem: ora como diagnósticos das condutas perversas tratadas como naturais, ora como alegorias que confrontam esse estado de conformatividade. O trabalho “A ponta, 2016” é um diagnóstico sutil de uma tal representação assertiva social da feminilidade através dos saltos altos. Com simplicidade, o trabalho revela que nem todos os corpos são aptos para tal desenvoltura. E nesse sentido, talvez reclame uma revisão aos padrões normativos induzidos a existirem como normalidade. Em “Sem Título, 2012”, a artista torna uma ação corriqueira do passar batom nos lábios em uma ação alegórica. Ao extravasar esse adorno para os lábios tomando todo o rosto e parte superior do busto, a artista traz à tona o modo abusivo de uma sociedade patriarcal que fetichiza o adorno e nega a condição de sujeito sócio-político a todas as mulheres.

Para uma sociedade patriarcal, os adornos conferem o estatuto de mulher e do feminino apenas numa condição metonímica simplista. Em outras palavras, os saltos altos, os vestidos, os batons, etc, são elementos de uma normatividade _que inclui estruturas pré-definidas de conduta estética, moral e emocional_, disfarçada de normalidade, que atribuem feminilidade a uma mulher, mas nunca a postulam como sujeito social e político. Muito pelo contrário, esse estatuto só a permite existir também como adorno. Ainda assim, existem aos montes campanhas publicitárias, programas de entretenimento, medicina especializada, em pleno exercício de ‘Ficção de Bondade’. Sob o pretexto de fazerem as mulheres sentirem-se “bem consigo mesmas” cumprem a função desse catecismo que conforma todas as mulheres a se auto-definirem a partir apenas de um conjunto de adornos, tipo de aparência e modos de agir subservientes.

No trabalho “Sala de exercícios, 2015”, fica dado modulações da conformidade dos sujeitos a padrões que, notadamente, arbitrários e, por vezes, inadequados aos seus próprios corpos. Tomando a si mesma como padrão de medida, a artista joga e desvela os manejos ardilosos das ‘Ficções de Superioridade’ e de ‘Bondade’ que prometem uma falsa ideia de bem-estar e emancipação do sujeito. Em absoluto, a prática do exercício em si se configura um mal. A padronização dos programas de exercícios e suas finalidades são o que está em pauta. O que se deve considerar é como os discursos de emancipação e bem-estar estão, quase sempre, imbricados com um ‘trend’ de mercado. Nesse sentido, fica posta a necessidade contínua de uma crítica que desmascare essa linha tênue que separa o desenvolvimento pleno de subjetividade que se manifesta numa escolha volitiva livre, ou um estado de conformação do sujeito que o leva a ser mero consumidor das “novidades” do capital.

Em “Fórmula Procrustes, 2016”, Braga retoma uma alegoria contundente. Sobre o trabalho ela conta: “o mito de Procrustes, ferreiro da mitologia grega que, em sua casa, tinha uma cama de ferro com seu exato tamanho, para a qual convidava todos os viajantes a se deitarem. Se os hóspedes fossem muito altos, ele amputava o excesso de comprimento para ajustá-los à cama, e os que tinham pequena estatura eram esticados até atingirem o comprimento suficiente.” A partir desse mito, a artista constrói o trabalho numa ação performática em que redefine a medida de uma cama de ferro à sua própria medida e conduz um convite tácito para que os visitantes/fruidores deixem registrados suas medidas num conjunto de réguas postas na parede com indicação de sua própria altura. Num segundo momento, Braga ajusta as sobras da cama a partir da diferença entre sua medida e a do convidado/fruidor.

Esse conjunto de gestos e ações parece refletir uma dinâmica social em que estão dados os jogos de padrões de medidas reflexionados como ‘Bondade’ dos quais participamos ora como vítimas, ora como amputadores. Nos jogos de poder, estão sempre em disputa quem define a régua e quem se deixa amputar sob pena de ser deixado de fora desse constructo que confere legitimidade social, que equivocadamente chamam: “cidadãos de bem”. Nos jogos de poder que incluem o desejo, o poeta Cazuza nos alerta e faz a prece: “Pra quem não sabe amar, fica esperando/ Alguém que caiba no seu sonho/ Como varizes que vão aumentando/ Como insetos em volta da lâmpada/ Vamos pedir piedade/ Senhor, piedade/ Pra essa gente careta e covarde/ Vamos pedir piedade/ Senhor, piedade.4”

Sobre fracassar melhor

As ‘Ficções de Superioridade’ ao longo da história da humanidade justificaram modos imperialistas de ser e estar no mundo que forjaram situações de guerras contínuas e aniquilação simbólica e real de culturas. O novo colonialismo tem encontrado nas ‘Ficções de Bondade’ modos de promoverem seu mercado bélico em nome de palavras como “Justiça” e “Democracia”. Dentro das ‘Ficções de Bondade’, o que é difícil perceber são as meias-verdades, os interesses inclusos. São ficções tão bem elaboradas que essas acabam ganhando apoiadores sedentos por alguma “justiça”. Mas que, no final das contas, já não há justiça alguma a ser encontrada nessas condições hierárquicas de existir. As ‘Ficções de Bondade’, numa escala micro, não só cumprem em fundar hierarquias como também criam modos subservientes de existir. Na ideia de ‘Bondade’, a régua que demarca o padrão de conduta e da moral tem a capacidade de operar uma aniquilação gradual da subjetividade. Com o passar do tempo, vai-se substituindo as referências e valores sob os quais um sujeito estava fundado em nome de uma adequação social que se o fizer de forma eficiente o torna “bem-sucedido”.

Em “Tão quente que era que pouco mais era a morte, 2015”, Elen Braga encontra no seu próprio fracasso um lugar de apaziguamento e redenção. Constantemente medida por réguas que tornaram seu caminhar pesaroso, ainda assim, ela assume essa condição como sua e a transforma num legado de si para si. Um monumento de sua existência no mundo, fruto de suas escolhas. Ainda que sob ameaça de um ‘Inferno’, seus “pecados” a conduziram por uma jornada que só lhe diz respeito. Então, ela o celebra. É como se todas as derrotas nelas mesmas trouxessem de volta o melhor de si. Seus fracassos, na verdade, são o fim da expectativa do ‘Outro-Superior’. E nesse sentido, em cada derrota, há uma possibilidade de recomeço livre, de uma plenitude a ser experimentada sem receios.


1 Em entrevista ao jornal “O Tempo”, 1997.

2 “Eu entrei no governo com um objetivo: transformar o país, de uma sociedade dependente em uma sociedade autoconfiante, de uma nação dê-para-mim em uma nação faça-você-mesmo.”

3 Alguns dos intelectuais da construção do pensamento decolonial: o filósofo argentino Enrique Dussel, o sociólogo peruano Aníbal Quijano, o semiólogo e teórico cultural argentino-norteamericano Walter Mignolo, o sociólogo porto-riquenho Ramón Grosfoguel, a linguista norte-americana radicada no Equador Catherine Walsh, o filósofo porto-riquenho Nelson Maldonado-Torres, o antropólogo colombiano Arturo Escobar.

4 Música: “Blues da Piedade”, composição de Roberto Frejat e letra de Cazuza. Faz parte do álbum “Ideologia”, de 1988.

*texto de 2016

 

_saiba mais sobre Elen Braga em http://www.elenbraga.com/

 

 

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